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NA PRESSA, SE ESQUECE A VIDA Theresa Catharina de Góes Campos
(ADVERTÊNCIA: Quem tiver pressa e gostar de celular, favor
não ler! Não diga que eu não avisei...porque não pretendo pedir
desculpas por minha sinceridade e convicção.)
A única pressa que aceito: a pressa para salvar vidas!
A pressa desnecessária é uma forma de rejeição, agressividade e violência, um verdadeiro insulto. Por isso a pressa me magoa profundamente...porque rejeita a convivência, a partilha com os outros.
Tenho pressa somente, muita pressa, mesmo, para fugir dos apressados.
De carro e celulares, sempre muito apressados, sem tempo para nada, enganando a si mesmos na correria sem fim, esgotam seu tempo falando aos telefones, porém mal conseguem conversar, comunicar-se de fato, com qualidade.
Têm pressa, muita pressa... foi pena terem me visto, esbarrado na minha pessoa, pois mal podem me falar umas poucas palavras de cortesia ou informação. A rapidez com que de mim se aproximam e se afastam até me faz sofrer... Não parece encontro, nem reencontro social, apenas em mim esbarraram e me reconheceram.
Onde há pressa, há estresse, muita ansiedade. Por que tanta pressa? Parece agonia encurtando nossos dias!
A pressa que afugenta a filosofia do cotidiano, tão necessária, ao contrário da maldita pressa, impede nascer a arte, a poesia escorraça...
A velocidade dos apressados minha calma atropelam, em mim esbarram. Em cima da hora ou repetidamente atrasados, por isso correm, correm, aos celulares agarrados. As pessoas, deixam de lado; os celulares, jamais.
Os sons dos celulares intrometidos, abusados, que, descorteses, não pedem licença... são desorganizados, indiscretos ao máximo, invasores de todos os espaços.
Quem posa de importante, a mim não convence de celular ligado. Ora, se tão ilustres fossem, teriam deixado uma secretária, um assessor para atender, em nome deles resolver. Ora, autoridades e profissionais, eficientes precisam ser, na organização de compromissos e horários tão inadiáveis. Auxiliares não devem ser dependentes de instruções na última hora. Programação se faz com antecedência, não precisariam depender de telefonemas repetitivos.
Ruidosamente, os celulares anunciam os apressados. Sem o mínimo de respeito, a comunicação silenciam, os sons da vida apagam.
Quando esquecem os celulares, voltam , coitados, seus donos, de coração palpitando. Por que os deixaram? Foi a tragédia da pressa. Imagine, seus celulares largaram...como puderam?
Não consegui ouvir, nem compreender, o que me disse alguém, sem largar, ouvindo seu celular, já bem longe de meus ouvidos, bem distante de mim. Não vou saber mesmo o que tentou me dizer, a não ser que eu decidisse, estar do outro lado da linha, mais prestigiada que a convivência pessoal, intransferível.
Temo que um dia eu me veja a rezar: "Livrai-me, Senhor, dos apressados e seus celulares. Escondei-me dos que não querem me ver, nem escutar, tão ocupados estão, com seus celulares e tantos compromissos inadiáveis, mais agradáveis que a minha simples pessoa."
Reconheço que os celulares lhes permitem falar com inúmeras pessoas distantes e mais importantes. Com as mais próximas, entretanto, não conversam, ignoram, silenciam. Ainda que seja preciso os bons modos esquecerem, seus celulares não guardam.
De sua vida detalhes contam, nos elevadores, corredores, nas salas de espera repletas, nos banheiros públicos, nas ruas agitadas, até dirigindo seus carros, muitas vidas arriscam... Mas o celular não silenciam!
A pressa dos sem tempo todo dia presenciar, mesmo a contragosto, é um grande pesadelo para mim, angustiada por ouvir sem cessar os celulares chamando, mais que as pessoas falando.
Uma das tragédias de nossa sociedade tecnológica, avançada materialmente, quase retardada espiritualmente, é termos pressa, muita pressa, para o que não merece nem justifica um só minuto de nossa enlouquecida pressa.
Têm a posse dos celulares, mas a posse da paz perderam. Igualmente não sabem que sem luta entregaram, seu direito à liberdade, à tão valiosa privacidade, à individualidade de seus passos, hoje rigorosamente acompanhados, identificados, denunciados... Uma pergunta ouvem, a todo momento respondem: - "Onde você está? O que está fazendo agora?" Os adultos, se independentes fossem, responsáveis por seus atos, a tal questionamento precisariam a todo momento dar uma resposta?
A pressa é destrutiva. Não é presteza. Não salva. Não constrói nem restaura o que precisa e pode ser regenerado, aperfeiçoado. A pressa gera desentendimentos, conflitos, incompreensões, muitos ruídos na comunicação.
Talvez um dia , que espero nunca chegue, eu precise informar aos inúmeros apressados, que nem precisam, de mim se aproximar, balbuciando frases incompletas, sem conseguir disfarçar a sua pressa. Posso de bom grado aceitar, seus cumprimentos de longe. Compreendi, afinal, capacidade não ter, para falar com os apressados.
Não aprendi, não sei, pela metade conversar, sem as frases terminar, sem os pensamentos concluir. Como posso saber o que não têm tempo para dizer, explicar?
Os apressados, em sua rotina, pelo caminho me deixam, feliz, cada instante aproveitando, com meus sonhos conversando, meus sentimentos embalando, bem tranqüila escutando, o que diz meu Anjo da Guarda, que jamais tem pressa...
Não sei fazer refeições com pressa porque apressada não sei comer. Também não consigo, com pressa, qualquer coisa aprender. Ñada vejo nem escuto se apressada estiver. Com pressa, só tenho medo. Com pressa, não sei completar, não consigo admirar nem incentivar. Com pressa não sinto estar vivendo.
A pressa me tolda os olhos abertos. Se pressa eu tivesse, com certeza esqueceria os maravilhosos amigos. Apressada eu magoaria aqueles que tanto amo. Concluo, portanto, que a pressa não é fada, nem coisa boa! Pressa é bruxa malvada, não é magia nem lirismo. De poesia despojada, a pressa conduz ao caos, a conflitos desnecessários (tão desnecessários quanto a pressa não motivada para salvar vidas), aos precipícios da desesperança.
Pressa não civilizada, desumana...Como se tempo não houvesse para o que deve ser feito amorosamente, sem pressa.
Theresa Catharina de Góes Campos Brasília-DF, 09 de outubro de 2008.
Escravidão voluntária - Telefones celulares - abuso!
Texto publicado no www.jornalada.com
Theresa Catharina de Góes Campos
No campo e na cidade, dentro e fora dos edifícios e
veículos, uma praga se alastra como epidemia sem vacina,
simulando progresso e liberdade. Telefones celulares e
bips interrompem conversas, invadem o espaço sonoro;
perturbam os momentos de oração e lazer, as salas de
aulas, as bibliotecas, as igrejas, os cinemas e teatros.
Um horror!
As pessoas não parecem entender que, ao invés de
demonstrarem evolução, poder, eficiência e posse, estão
revelando incompetência no uso de seu precioso tempo.
Afinal, deixam-se envolver em compromissos supostamente
inadiáveis, abdicam de seus momentos de privacidade,
esquecem as mais elementares regras de etiqueta,
mostram-se descorteses, egoístas ao extremo.
Falta de educação, organização, planejamento...salta aos
olhos dos que, incomodados e/ou boquiabertos, resistem a
esse tipo de escravidão voluntária, sentem-se mal e
aguardam que, num instante de reflexão, os viciados no
uso ininterrupto de bips e telefones celulares venham a
compreender que se deixaram dominar por um vírus
barulhento e visível.
Afinal, não se trata mais de prova de status...aparelhos
reais ou de brincadeira surgem nas mãos de todos...
como armas quase tão perigosas como os revólveres de
brinquedo. Olhando-se à volta, vemos que apenas os
bichos ainda não dispõem de celular. E por isso são mais
saudáveis do que nós!
Tenhamos a coragem de resistir, colocando limites aos
exageros e abusos, dizendo "não" a esta nova forma de
escravidão voluntária. Conscientes da liberdade que
precisamos conquistar a cada dia, reconhecendo os
direitos e a dignidade do próximo, aprendamos - e
tenhamos orgulho de mostrar que sabemos exercer tal
domínio - a manter nossos bips e celulares, apesar de
ativos, agradavelmente invisíveis e calados, aguardando
que a nossa inteligência determine quando, com urgência,
precisamos utilizá-los!
Theresa Catharina de Góes Campos
Fonte: Boletim informativo do Cineclube dos Educadores
Data: 18/2/2000
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MINUTO DE PAZ
A meus adorados Pais, com todo o amor de filha
Há algo nesta praia,
neste mar, nestas ondas,
nesta praia...
Voz que fala ao meu coração,
me tranqüiliza,
me faz achar a vida bela,
me faz ver beleza neste mundo triste,
me faz ficar em paz...
Por isso, não me interessa
saber que as ondas trazem conchas,
não me importa o movimento das águas,
a maré que está secando,
a areia que parece aumentar...
Agora, neste momento,
o meu mundo, a minha vida,
estão resumidos
neste canto de areia
em que estou sentada.
De tudo que me rodeia,
percebo apenas
a profunda paz que sinto
e me faz feliz...
Theresa Catharina de Góes Campos
Recife-Pernambuco, 24 de outubro de 1960
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SAUDADE VAI DE CORREIO
Uma espada afiada
que fere o coração.
Uma dor pungente
de uma grande paixão.
Uma carta que leva
a intensa saudade
de alguém que partiu
levando consigo, a felicidade.
Theresa Catharina de Góes Campos
Recife-Pernambuco, 24 de outubro de 1960.
From: LUCI
TIHO IKARI
Date: 2008/10/10
Subject: RE: SAUDADE VAI DE CORREIO
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Bom-dia!
O consolo, são as boas lembranças. Luci
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POESIA MATUTINA
Para os meus adorados Pais, esta minha "sujeirinha
poética", com um
beijo carinhoso da filha Therezita.
Era manhã...
O raio de sol entrou
E o rostinho do bebê iluminou.
Depois, quando ele
as mãozinhas levantou
e os olhos pequeninos esfregou,
para o rabinho de um gato manhoso
o raio de sol pulou...
Todo o quarto percorreu,
em tudo que viu pousou,
em todo buraco penetrou,
a casa todinha percorreu.
Ágil e brincalhão foi visitar
a sala de estudo
da irmãzinha do bebê.
Os lápis de cor fez brilharem,
dourou os livros e cadernos,
brincou nos seus louros cabelos,
entrou no tinteiro aberto,
os óculos da garota experimentou,
a ouro o patinho de madeira folheou.
Ali estava tão divertido...
se não fosse a curiosidade
que o raio de sol agitava,
eternamente ali queria ficar.
Saiu, porém...
a cozinheira espiou
temperando a carne.
Foi ver se a babá
já se preparava
para cuidar do bebê.
Mas, ao vislumbrar o jardim,
o raio de sol voou
e na corola de uma flor se debruçou...
Com muito esforço,
penetrando nos ramos da árvore,
subiu a um ninho de sabiá
para nele descansar.
Depois, nas águas do lago roçou.
Aos trabalhadores sede levou
e fez a terra ficar queimando,
ao calor do meio-dia.
Será que alguém, todas
essas façanhas contemplou?
Essas aventuras matutinas,
simplesmente luminosas?
Esses caminhos rotineiros,
peregrinações extraordinárias?
Na paz de uma clareira,
o raio de sol adormeceu.
Por instantes deixou de ser travesso,
de ser moleque fatigado,
de ser malandro curioso,
de ser terno também.
E muito, muito depois,
bem acima do cume
das verdes montanhas,
muito além da terra diminuta,
no seio das nuvens,
sem nada falar,
sem nada mais fazer,
sem gritar nem chorar,
o raio de sol morreu...
Theresa Catharina de Góes Campos
Recife - Pernambuco, 24 de outubro de 1960.
From: Dora
Date: 2008/10/9
Subject: Re: POESIA MATUTINA
To: "theresa.files"
Querida amiga
Tentei responder-lhe várias vezes e imobilizada fiquei.
Talvez emoção ou saudades, ou porque nem poeta sou.
Mas as suas palavras têm atravessado esta máquina fria,
enchendo de calor nossa casa e esta cidade, a Curitiba
fria e gelada, onde a primavera ainda não deu sinais de
vida, a não ser pelo ninho do sabiá no jardim de nossa
casa, bem no pé do heliotropus. (...)
Com carinho e amizade.
Dora e Walter
From:
Theresa Catharina de Goes Campos
Date: 2008/10/9
Subject: Re: POESIA MATUTINA
To: Ana Falcão
Estimada Ana:
Na dúvida, envio algumas poesias para você ler. Já estou
satisfeita por você ainda não me ter pedido para não
enviar mais. Aliás, saiba que alguns de meus poemas,
devido aos temas e opiniões que expresso, eu não enviei
mesmo a ninguém, apenas recentemente incluí na seção
poesias, depois de anos sem decidir se deveria ou não
divulgar.
Sobre os poemas a que você se refere, escritos quando eu
tinha quinze anos, minha emoção foi tão grande ao
encontrá-los, junto aos pertences de minha mãe, por mim
datilografados e com dedicatória manuscrita, que até o
momento me sinto bastante comovida com essa experiência
pessoal.
Meus pais se mudaram dez vezes (não estou exagerando,
foi isso mesmo!), inclusive de cidades, estados e país,
guardando esses meus escritos com eles, desde 1960!
Confesso que a mim me parecia que eles não se importavam
tanto nem apreciavam assim o que eu escrevia... Como
iria adivinhar, se não diziam? Mas guardaram consigo,
devem lhes ter agradado, penso eu agora, fazendo essa
reflexão enquanto choro bastante.
(...)
Obrigada por suas palavras generosas - incentivo nunca é
demais.
Abraços cordiais da amiga
Theresa Catharina
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2008/10/9 adfalcao
Theresa, na década de 60, uma menina, você já
demonstrava todo o seu senso de observação, aguçado e
amadurecido com o passar dos anos. (...)
Abraços, Ana
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POR QUE EXISTEM ROSAS
Para a minha adorada Mamãe, com todo o amor de sua
filha. Salve o Dia das Mães!
Therezita
(Valéria era bonita,
era elegante,
era admirada por todos;
recebia sempre rosas,
mas não deixava de ser
egoísta,
indiferente,
leviana.
Valéria era bonita,
era elegante.
Só não era ternura,
só não era amor,
só não era rosa. )
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Deus colocou no mundo as rosas
para tornar menos árida a terra,
para alegrar a nossa vida
e tudo o que ela encerra.
As rosas brotam
porque precisam perfumar.
Deus também colocou no mundo as rosas
para que fossem ofertadas
pelos homens, uns aos outros;
para que embelezassem um lar,
para que tornassem singelo
um trecho qualquer de caminho.
As rosas florescem
porque sua missão é alegrar.
As rosas são belas,
as rosas são puras,
as rosas são presentes de Deus
à humanidade pecadora.
As rosas existem
porque purificam a terra.
Só a rosa murcha,
só a rosa morta,
só a rosa que já deu tudo,
não tem perfume.
A senhora é rosa, Mamãe,
porque perfuma a nossa vida,
porque alegra a nossa casa,
porque purifica a nossa alma.
Theresa Catharina de Góes Campos
Recife-Pernambuco, 14 de maio de 1961.
Obs. Original manuscrito, do qual eu não tinha cópias,
reencontrado por minha irmã entre os pertences de nossa
Mãe, em outubro de 2008, quatro meses após a sua morte.
Poema que Mamãe guardou, mesmo tendo mudado de
residência (em diferentes cidades, estados e até país!).
Theresa Catharina
From: luci
Date: 2008/10/13
Subject: Re: POR QUE EXISTEM ROSAS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Theresa Catharina:
Que bonita! As mães são sempre mães, eternamente!
Mostram o amor de cada dia. Luci
From:
elizabeth barros
Date: 2008/10/13
Subject: Re: POR QUE EXISTEM ROSAS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Querida Tia,
Que linda poesia! Fiquei emocionada com sua explicação
de que essa poesia foi guardada com muito carinho
durante muitos e muitos anos......
Isso comprova o grande amor que ela tinha pela senhora,
por mamãe e o tio Fernando José.
De sua sobrinha, Elizabeth.
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LÁ NO FUNDO, BEM NO FUNDO, NINGUÉM VÊ...
Alegrias e dores,
existem dentro de mim.
Um sofrimento sem fim.
Lá no fundo, bem no fundo
de meu peito,
fustigando o coração,
ficam a tristeza, as dores,
a saudade que não sai...
Uma saudade imensa
daqueles que se foram
apesar de amados por mim.
O amor e a dor se aninharam
tão fundo, no mais fundo
de meu ser entristecido.
Parecem adormecidos
para sempre...
Não é verdade:
de minha vida são companheiros,
este amor, esta saudade,
na dimensão gigantescos,
no sofrimento imensos,
que me causam noite e dia.
Não estão adormecidos!
Nem de mim distantes!
Ininterruptamente latejam,
pulsam e sangram,
como se quisessem explodir
para na superfície surgirem,
à flor da pele, no marejar dos olhos,
e visíveis se tornarem.
Mas eu empurro
lá pro fundo, bem no fundo,
no mais fundo
de meu ser tão dolorido.
Porque ninguém vê,
ninguém percebe
esta saudade tão doída,
dos que não posso mais conquistar,
agradar, acarinhar,
com diligência amar.
Para onde foi a minha dor?
Lá no fundo, bem no fundo,
no mais fundo de meu ser,
as dores expostas, sem curativo,
as dores mais profundas
que choram sem parar.
Incapazes de falar,
sem forças para gritar,
agora já fazem parte de mim.
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília-DF, 12 de outubro de 2008.
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O QUE ESCREVEMOS NÃO MORRE
Dedicatórias eternas,
em textos encontrados vivos,
sempre vivos, disponíveis,
cumprindo a sua missão,
dizendo a sua mensagem,
embora a morte já tenha levado
tantas pessoas queridas!
Essas palavras escritas ficaram,
não foram enterradas,
nem cremadas se findaram.
Décadas se passaram
sem que as páginas escritas,
vítimas do esquecimento fossem,
nem pelo furor da morte destruídas.
Quando encontramos
o que nós dedicamos
às pessoas que amamos,
os momentos especiais são revividos.
Porque a morte furiosa
não sabe, nem pode destruir
o que escrevemos com tanto amor!
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília - DF, 12 de outubro de 2008.
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A VIDA E O TEMPO NAS FOTOS
O tempo passa, deixa o passado esquecido, o hoje despercebido.
Quando o futuro vier, serão nas fotos antigas (a cada dia mais valiosas!), nas imagens relembradas, que voltaremos ao tempo, à vida daquele tempo, que não mais podem voltar.
Theresa Catharina de Góes Campos Brasília-DF, 12 de outubro de 2008.
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SUBIU NO CAJUEIRO PARA LER E SONHAR
No quintal de sua casa, subiu no cajueiro amigo para ler e sonhar.
Brincou de amarelinha, cantigas de roda cantou, com as amigas solidárias; pulou corda, jogou dominó (porque xadrez não sabia), jogou até paciência, depois cansou e, fatigada, foi dormir... Porque o amor não veio.
No dia seguinte, tudo recomeçou... Brincou com suas bonecas, jogou dominó, pulou corda, cantigas de roda cantou. No cajueiro, carregadinho de frutos, subiu para ler e sonhar, de livro na mão, mil sonhos na cabeça.
De nada adiantou tanta preparação, com animada programação. O amor não veio, nem sendo chamado com tanta fé e ternura. A realidade precisou enfrentar: o amor não chegou.
Os anos se passaram... Mudou de interesses, mudou de idade, mudou de sonhos também. Nem assim, com maturidade, o amor apareceu.
Mudou de endereço, teve a vida transformada. Mesmo assim não desistiu do seu sonho acolher, visível, concretizado. Nunca achou impossível ver o amor chegar.
O amor não veio, é verdade, é fato reconhecido. Mas valeu o tempo de espera. Valeu, ainda mais, com certeza, o sonho de amor acalentado.
Theresa Catharina de Góes Campos Arcoverde - Pernambuco, outubro de 1962.
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NEM SEMPRE O CORAÇÃO CONSEGUE MEU CORPO CARREGAR
Os meus limites, como pessoa, estão delineados, eu sei. Até que ponto eu consigo ir, embora em silêncio, eu bem sei. Não sei sobre isso me expressar ou em detalhes a outros explicar. Dolorosamente, no meu íntimo eu sei. Identifico com bastante clareza o que não posso suportar.
Minha fragilidade eu conheço, em suas minúcias e nuanças, que somente Deus tão bem conhece. Porque Ele assim me fez, tão incapaz diante do inexorável. Das minhas fraquezas já sei. Calo-me, porém já sei, o que não posso fazer porque me faltam forças físicas e mentais.
Nem sempre meu coração, o que eu tenho de melhor, com tanta capacidade, pleno de sentimentos vigorosos, nem sempre este meu coração consegue em seus invisíveis braços o meu corpo frágil carregar.
Confesso, envergonhada: não é para tudo que eu consigo este meu corpo levar... Fico imóvel, incapaz, congelada, sem conseguir caminhar, sem que possa reagir, porque meu coração não agüenta tudo o que a vida nos dá para sofrer, enfrentar.
Theresa Catharina de Góes Campos São Paulo, 14 de junho de 2008 (data do falecimento de minha Mãe).
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ÀS VEZES O CORAÇÃO IMOBILIZA O CORPO
Muito sensível, veloz, absorvendo
até o que não desejaria aceitar,
às vezes o coração imobiliza o corpo.
Congela seu furacão interior,
acorrenta os membros do corpo,
silencia a boca, até a mente,
qualquer ação impedindo.
Os pulmões mal conseguem respirar...
porque a ordem do coração
foi tudo imobilizar.
Os ouvidos ouvem,
mas nada podem fazer
para o corpo libertar.
É preciso com paciência esperar
que alguém venha libertar,
do coração traumatizado,
o corpo imobilizado.
Na verdade, é preciso rezar,
com fé na ressurreição orar,
para que o coração atingido
volte a bater em seu ritmo,
reaprendendo a respirar...
para a saúde da alma voltar.
A bênção de respirar
normalmente, sem agonia,
em dinâmica harmoniosa
com o corpo também sofrido.
Nas orações persistindo,
o coração consolado,
pelo tempo de Deus libertado,
dará, enfim, alforria ao corpo.
Theresa Catharina de Góes Campos
São Paulo, 15 de junho de 2008.
OBRIGADA
PELO CONSELHO
From:
Theresa Catharina de Goes Campos
Date: 2008/12/24
Subject: Obrigada pelo conselho!Re: ÀS VEZES O CORAÇÃO
IMOBILIZA O CORPO
To: adfalcao
Estimada Ana:
Após tantas semanas sem acessar a internet (mais de um
mês, devido aos compromissos em São Paulo), leio o seu
e-mail de amiga, analisando meus versos e, sobretudo, me
ajudando com a sua revisão atenta, competente.
Já me livrei do meu verso tosco, desajeitado, que
clamava por uma forma mais bonita e objetiva de se
expressar e, graças a você, livrou-se da roupa
inadequada, ganhando vestimenta digna de sua mensagem.
Muito obrigada! Espero que você também goste, como eu,
da modificação no poema.
Abraços carinhosos da amiga de sempre,
Theresa Catharina
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2008/10/21 adfalcao
Theresa, só hoje, após meu retorno, leio sua poesia.
Leio e releio e observo que ela combina com muitas
pessoas e muitas situações. Penso que se trata de algo
ao mesmo tempo particular e universal.
Sem desmerecer em nada seu trabalho, peço que releia o
verso "a com saúde da alma respirar".
Abraços, Ana
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UM CANTO
Artemis Coelho
Este, o Senhor me enviou.
Há um canto, Senhor,
no meu coração
que mesmo sem oração
reconhece Tua Presença.
Há um canto,Senhor,
no meu coração
em que só Tu podes entrar.
Nem mesmo eu
se Tu não quiseres
saberei lá estar.
É só um canto,Senhor,
eu bem o sei
Mas esse canto, Senhor,
quando Tu lá estás
determina todo meu ser.
É nesse canto, Senhor,
que eu quero estar
cada vez mais.
E mesmo sendo só um canto
cabe lá todo o Universo
Num único verso de Amor
Que só Tu podes me dar.
É um canto
um louvor
um doce encanto.
E de canto em canto,Senhor,
serei transformada eternamente.
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I WILL WRITE TO YOU
I will write to you
yesterday,
the precious time -
not today,
not tomorrow,
because it will be too late
if I do not contact you
much in advance...
yesterday,
the so precious yesterday.
I will write to you
yesterday,
the seed of all times,
the seed of my dreams for the future.
Yesterday, not tomorrow!
Before today,
before tomorrow!
Yesterday...
the very precious yesterday,
much before today,
so the future
will be with you
beside me.
Because tomorrow
should be today...
perhaps in the past,
maybe yesterday...
Tomorrow should be today!
Why to wait?
It will certainly be too late...
I know it would be too late!
I do realize this.
So I promise myself today
to write to you
yesterday,
the precious yesterday,
I must emphasize.
Then we will be together
yesterday, today
and tomorrow.
With open heart
and welcoming hands,
using my mind
as a magic time machine,
I will write to you...
Yesterday, not today.
I am not waiting for tomorrow!
Theresa Catharina de Góes Campos
Thousand Islands, Province of Ontario - Canada ( August,
1971)
ESCREVEREI A VOCÊ
Escreverei a você
no dia de ontem,
no precioso ontem -
não no dia de hoje,
não amanhã,
porque será tarde demais,
se eu não entrar em contato
com você
com muita antecedência,
ontem,
no tão precioso dia de ontem.
Escreverei a você
no tempo do ontem,
no passado seminal,
que o porvir sonhado semeia.
Ontem,
não amanhã!
Antes de hoje,
antes de amanhã!
Ontem,
o muito precioso ontem,
muito antes de hoje,
para que o futuro
seja com você
a meu lado.
Porque o amanhã
deveria ser hoje...
talvez no passado,
talvez ontem...
O amanhã deveria ser hoje!
Por que esperar?
Certamente será tarde demais...
Sei que seria tarde demais!
Cheguei a essa conclusão.
Assim eu prometo
a mim mesma, hoje,
escrever a você
no dia de ontem,
no precioso ontem,
devo enfatizar.
Porque o amanhã
deveria ser hoje...
talvez no passado,
talvez ontem...
O amanhã deveria ser hoje!
Estaremos juntos, então,
ontem,
hoje e amanhã.
Escreverei de coração aberto a você,
com mãos acolhedoras
e usando a minha mente
com a magia de máquina do tempo,
escreverei a você...
Ontem,
não no dia de hoje.
Eu não vou esperar o amanhã!
Theresa Catharina de Góes Campos
Mil Ilhas, Província de Ontário - Canadá (Agosto de
1971)
From: Jose
Araujo
Date: 2008/11/23
Subject: ESCREVEREI A VOCÊ / I WILL WRITE TO YOU
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Querida amiga Theresa,
Meu Deus!
"I WILL WRITE TO YOU", é uma das coisas mais lindas que
já li!
Como você sabe, eu sou um homem que se emociona
facilmente e não se envergonha disso.
Enquanto lia seu texto, a emoção tomava conta de meu ser
e como sempre, quando algo me toca profundamente, as
lágrimas rolaram livremente.
Esse poema é maravilhoso, minha amiga, e só alguém com
seu talento e sua sensibilidade, para criar algo tão
lindo assim.
Vou guardar comigo para ler sempre, minha cara Theresa,
pois seu poema
me emocionou por demais.
Lindo, absolutamente lindo, profundo e encantador!
Amo tudo que escreve e é um prazer imenso conhecê-la
pessoalmente!, Parabéns mais uma vez, minha amiga, pela
sensibilidade, pelo talento e pela arte de escrever que
Deus lhe deu e que a diferencia dos meros mortais.
Um abraço carinhoso, com todo meu respeito e a admiração
de sempre,
José Araújo
Autor e escritor paulista
From:
REYNALDO FERREIRA
Date: 2008/11/24
Subject: RE:ESCREVEREI A VOCÊ / I WILL WRITE TO YOU
To: Theresa Catharina Campos
Bela poesia, Theresa Catharina. Obrigado pela mensagem.
Reynaldo
From: luci
Date: 2008/11/26
Subject: Jogo inteligente
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Olá!
De qualquer forma é um jogo inteligente. Luci
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Cara Luci:
Obrigada por suas palavras bondosas. Na verdade, eu nem
vi as tais rimas... porque só me preocupei, tenho
certeza, sobretudo na época em que escrevi os versos,
com o tema e o jogo verbal (usar o futuro para a idéia
do passado, do ontem precioso, que prepara o presente e
o futuro).
Abraços afetuosos para você e Sae.
Com a estima de
Theresa Catharina
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Em 24/11/08, Luci escreveu:
Theresa Catharina:
Como você tem facilidade para escrever!
Parabéns! Ficou muito bom com esse jogo de palavras e
rima bem.
Luci
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HAICAIS PARA A NATUREZA
Árvore ornamental,
a cássia transforma paisagens
em exibição natural.
Estiagem dramática,
ameaçando a sobrevivência
de pessoas corajosas.
A minhoca é pequenina,
mas de tanta utilidade
para os pescadores !
Theresa Catharina de Góes Campos
São Paulo-SP, 24 de novembro de 2008.
From: luci
Date: 2008/11/26
Subject: HAICAIS PARA A NATUREZA
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Olá, Theresa Catharina,
É singelo, mas bonito.
Luci
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A VIDA DE BÊNÇÃOS QUE DEUS INSISTE EM ME
CONCEDER
A dor maior que sinto,
meu sofrimento contínuo,
por quase todos ignorado,
aumentado pelo tempo,
a cada dia mais escondido
e tão bem disfarçado,
ninguém sabe,
ninguém perguntou,
nem procurou saber,
muito menos ter contato.
Por isso permaneço
profundamente só
na vivência dessa imensa dor
que nem ouso revelar;
à margem da solidariedade
que eu poderia receber,
caso eu fosse sinceramente
convidada a confidenciar.
Certamente, porém,
estou determinada
a não ter meu sofrimento
suavizado, talvez,
porque joguei tais dores
na vida de meus amigos.
Não quero isso!
Sentiria um remorso imenso,
um doído ressentimento
como se um mal enorme fizesse
àqueles a quem tanto amo
e só desejo fazer o bem.
Assim, vou eu vivendo,
malgrado essa dor
tão íntima, apesar de visível;
por quase todos conhecida,
em sua origem já decifrada,
há décadas identificada
mas sempre silenciada.
Não tenho como,
eticamente desmascarar,
ou expondo mil feridas,
ou sem por dentro me destroçar,
ainda mais do que estou,
me defender dos que me acusam
na ausência e no silêncio,
além de falsamente
documentada
em registros maledicentes
de entrevistas em jornais,
até registros na internet,
em correspondência familiar
que nem a morte apagou
porque destruídas não foram.
Por que não me defenderam,
os que a vida inteira
tão de perto me conheceram?
Reconheço, porém,
que as calúnias por muitos
consideradas verdadeiras
também os tornaram
meus caluniadores,
cúmplices das mentiras
que meu nome mancharam
nos meus relacionamentos mais próximos.
A mim resta o agradecimento
pela vida que Deus insiste
com tanta generosidade me conceder,
me dispensando as forças
e tantas bênçãos renovadas.
Meu dever é a meu Criador louvar,
aleluias todos os dias cantar,
mil graças testemunhar...
porque ainda respiro
surpreendentemente
uma rotina inesperada
de tanto amor, tanta amizade!
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília-DF,17 de dezembro de 2008.
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O BELO,
MISTERIOSO ENIGMA DOS DESENCONTROS
O encontro acontece,
não se explica, é.
Desencontros se revelam
enigmas e mistérios,
às vezes ilógicos,contraditórios.
Na busca do que não procurei,
misteriosamente me realizei.
De tudo que me levaram
restou-me o nada essencial,
a fartura seminal
do despojamento quase total.
Na busca do que não procurei,
esse desencontro sofrido me realizou.
As palavras que sonhava ouvir
não me foram presenteadas.
Nesse desencontro em silêncio
as palavras não pronunciadas
me devolveram um silêncio criador.
A força do carinho que não recebi
revigorou-me interiormente.
Do tesouro que me arrancaram das mãos
ficou um mapa das minas de diamantes
ainda não conhecidas,
nem mapeadas.
Em todas as ausências
encontrei presenças
já decodificadas
para inserção em mim
como ausências
que se tornaram
presentes.
A companhia das ausências
que foram vivências
e companhia tão queridas.
Quando chegaram as doenças,
entre elas a epilepsia
que não me abandonará
até o momento final,
comecei a construir minha saúde.
A partir da imobilidade
nos períodos de permanência na UTI,
nas incertezas das sessões de quimioterapia,
nos repetidos e difíceis exames ,
surgiu a decisão para aprender mais
com os desencontros.
Determinada, aceitei a realidade
de que o encontro jamais poderia ser
um posicionamento individual,
nunca dependeria apenas de mim.
Dos desencontros, porém,
com seus belos enigmas e mistérios,
deveria eu cuidar.
Do peso certo durante cinco décadas,
passei a conviver com a obesidade
a exigir atividades físicas
e restrições na alimentação,
cuidados antes desnecessários.
Mesmo quando não havia sol,
lua, estrelas visíveis no firmamento,
destacou-se nos meus sonhos
a luz dos olhos
de alguém especial,
a luminosidade das águas
sem imobilidade.
Sobretudo encontrei a luz
sem face nem brilho
que pressentia meu coração
até na insondável escuridão
que tentava negar a esperança de luz.
Do branco e do negro fiz arco-íris.
Do verde eu teci matizes,
do azul bordei nuanças.
Da força de vontade do corpo,
chamando a mente e o coração,
em convocação para trabalharem juntos,
saíram versos e sons silenciosos,
músicas jamais executadas,
canções escondidas, inéditas.
Minha vida colori
usando a pena como se fosse
alaúde, flauta e sanfona.
Com a pena transformada,
em condutora de sonhos
atuando magicamente,
consegui criar cores e formas.
Como se a pena fosse
esmeril e pincel.
O orvalho se fez na minha face
todos os dias, nascido das lágrimas
que permaneceram nas sombras.
Nas pessoas iguais, percebi diferenças.
Nos diferentes, também enxerguei semelhanças.
Fui capaz de amar essas igualdades e diversidades.
Seguem pulsando, os enigmas anunciados
pelos perturbadores mistérios dos desencontros.
Do amor rejeitado
fiz uma receita para viver.
Ignorada, aprendi a ver,
a observar e reconhecer,
reflexiva e ciente,
o visível e o invisível,
no ontem e no hoje pressentidos,
consciente dos enigmas e mistérios.
Dos golpes nasceram harpas,
flautas e cítaras.
Dos sonhos desfeitos,
ficou uma partitura de aleluias,
canções de louvores nos sinos a badalar,
testemunhando sem jamais cansar:
foi Deus, foi Jesus, Menino e Redentor.
Com voz de defesa inaudível,
figura quase invisível
a males e dores maiores,
superiores às minhas poucas forças,
já muito abaladas,
eis que sou resgatada pelos anjos.
Junto-me aos pastores de Belém
e aos sábios Reis Magos
desde o Oriente guiados
também por sonhos, estudos
e pela estrela única do Natal,
esplendorosa e deslumbrante
com seu manto a desfilar
no firmamento todo iluminado.
Vê-los posicionados, contritos,
em adoração diante da Criança,
foi a Epifania que me uniu
ao universo do Criador,
em Sua plenitude do Bem e do Amor,
em suas dimensões mais incompreensíveis
por nossa pequenez,
em nossa vida seguindo
caminho de dor, esplendor.
Os desencontros se desfizeram
no encontro maior do presépio.
Descobri, para minha satisfação,
que mesmo golpeada...
sou resistente e resiliente,
além de multifacetada,
em metamorfoses bastante experiente.
Lembrei do comentário de amigo,
na faculdade, afirmando ser eu
uma violeta que se demorava
a notar, mas a partir do momento
em que era percebida,
passava a ser apreciada.
Gerada no amor de meus pais,
muitos séculos antes eu fui
Pensamento e Palavra de nosso Criador,
argila nas mãos amorosas de Deus.
No Plano maior da Divina Providência,
ouso pensar que sou poema incompleto
do Senhor do Tempo, cujos versos
têm mil formas e rimas.
Eternos, incontáveis versos...
nascidos do poder da Palavra,
criadora da Luz e de tudo que existe.
Na imobilidade, dancei a vida.
Nos movimentos, encontrei o pensar filosófico.
Na transparência me escondi,
nas sombras me vesti de luz.
No vazio, com o nada que me deixaram,
realizei a alquimia do quase tudo.
O que me tiraram não me pertencia,
descobri, afinal conformada.
O que Deus me deu, ninguém me tirou.
Recebi o melhor, não o mais fácil,
nem o mais previsível:
o belo, misterioso enigma
dos desencontros.
Reconheci uma visão dos mistérios
nos ecos e brilhos matizados da luz.
Apreciei a luminosidade na vibração dos sons.
Percebi os movimentos do firmamento imóvel.
Ouvi o silêncio e as sombras.
Escutei os lamentos inaudíveis.
Senti a proximidade das estrelas.
Na ausência das distâncias
para o espírito e os sentimentos,
sem obstáculos interiores,
muito íntimos e pessoais,
seguindo parâmetros incomuns,
paradigmas impopulares, minoritários,
me considerei realizada...
e a caminho de novas realizações.
Até do amor rejeitado...
aquela recusa que seria
uma rejeição inaceitável
por envolver os laços de sangue
mais profundos,
o amor forçado a não existir,
de toda essa recusa,
transmutada e transfigurada
de forma seminal,
construí um amor difuso,
às recusas acostumado,
enfim, uma existência plena
apesar das imperfeições,
malgrado as carências mais dolorosas.
Uma realidade que não se vê,
mas existe. Talvez na forma de avesso.
Talvez nos muitos desencontros.
Uma energia escondida,
mas que de fato existe,
vai se renovando no percurso da vida,
uma energia assim inesgotável,
presente, embora invisível!
Uma energia de libertação
das prisões interiores,
concomitantes e sucessivas,
invisíveis, contemporâneas.
Uma energia pesquisada,
evoluindo para que o fim seja encontrado
somente quando, no desfecho inexorável,
no minuto final inevitável,
caminhos a percorrer não mais houver...
Nos momentos de maior lucidez,
poderia ser considerada louca.
Logo percebi, no entanto,
do meu viver não desejar
esse estado de lucidez diferente apagar.
Nas ondas do oceano,
busquei imobilidade.
Nas estrelas procurei
a escuridão da noite.
No sol, quis encontrar a lua.
Na lua esperei encontrar
o calor germinador do sol.
Consegui realizar,
no encontro dos desencontros,
no âmago de mim mesma,
na força indômita do espírito,
todos aqueles mais antigos ideais
que aos outros pareciam impossíveis.
Lúcida e determinada,
eu compreendia ser
uma loucura consciente,
uma percepção de vida não-alienada,
embora à primeira vista surreal.
Ficando surda aos ruídos
insensatos do mundo,
passei a ouvir os sons inaudíveis,
silenciosos...mas tão reais!
Reunindo essa matéria insólita,
invisível, escondida nos mistérios
de enigmas jamais solucionados,
caminhei, resoluta, para Ser, Agir e Viver Melhor.
Porque nossa escala de notas musicais
tem mais que notas...
são sinos a badalar, convictos,
melodias de louvores,
partituras de sonatas abençoadas,
gritos de Aleluia.
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília-DF, 21 de dezembro de 2008
From:
Hercilia Lopes Lopes
Date: 2008/12/21
Subject: Olá
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Oi, Theresa,
Belíssimos os teus versos. Parabéns.
Mais uma vez te desejo um ano de 2009 cheio de encontros
felizes com teus amigos e familiares.
Hercília
From: Jose
Araujo
Date: 2008/12/21
Subject: Re: O BELO, MISTERIOSO ENIGMA DOS DESENCONTROS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Cara amiga Theresa, mais uma vez você me emociona
profundamente com um texto seu.
Absorvi cada palavra e viajei em meus pensamentos!
Você tem o dom da palavra ,minha amiga!
Obrigado pelo carinho de sempre e aproveito para
desejar-lhe um Feliz Natal e também um ano novo cheio de
realizações, em todas as áreas de sua vida!
Do amigo sincero e seu leitor assíduo,
José Araújo
Autor e escritor paulista
From:
adfalcao
Date: 2008/12/22
Subject: Re: O BELO, MISTERIOSO ENIGMA DOS DESENCONTROS
To: "theresa.files"
Theresa, tão espontânea quanto belíssima, sua mais
recente confissão.
Só poderia ser sua. Beijos, Ana
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2008/12/26
Subject: Re: O BELO, MISTERIOSO ENIGMA DOS DESENCONTROS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Theresa Catharina:
Você consegue transformar o sofrimento em realizações
felizes.
Encaminha-as, para distribuir coragem, determinação e
compreensão a todos que necessitam. Luci
From: Diana
Farias Campos
Date: 2008/12/22
Subject: Re: O BELO, MISTERIOSO ENIGMA DOS DESENCONTROS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
"...Na busca do que não procurei,
misteriosamente me realizei..."
Lindo demais o seu poema, tia!
Ao mesmo tempo pesado por falar de dores de todas as
naturezas, de uma delicadeza, sutileza e leveza ímpares.
Admiro muita sua sensibilidade, mais ainda sua
capacidade de expô-la, imprimi-la em palavras de forma
tão bela!
Sempre que vejo um e-mail com o assunto "CD-poesias..."
chegando, encaro como um presente entrando em minha
casa!
Um enorme Beijo!
Diana
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HAICAIS DO AMOR E DA AMIZADE
Se amizade não houvesse,
a ausência do amor
tornaria a vida impossível.
Se a esperança não fosse
o sustentáculo da vida,
nem amor nem amizade contariam.
Casulos e borboletas,
amor e amizade são,
em metamorfoses dinâmicas.
Seminais, transformadores,
são o amor e a amizade,
nos seus movimentos e fases.
Se amor e amizade
em silêncio apenas existissem,
frágil demais seria nossa vida.
De amor e amizade vivemos;
com os dois sentimentos,
à vida dizemos "sim".
Theresa Catharina de Góes Campos
São Paulo, 30 de novembro de 2008
From:
artemis coelho
Date: 2008/12/25
Subject: RE: HAICAIS DO AMOR E DA AMIZADE
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Minha amiga, é isso aí. São refrigérios na alma que Deus
nos concede.
Anjos a nos transmitirem. Abraços,
Artemis
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2008/12/26
Subject: Re: HAICAIS DO AMOR E DA AMIZADE
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Parabéns pela criatividade. Seus poemas são sempre
originais. Luci
From:
Theresa Catharina de Goes Campos
Date: 2008/12/28
Subject: Obrigada por suas palavras amigas. .Re: CANTO
DE
RECONHECIMENTO À AMIZADE e HAICAIS DO AMOR E DA AMIZADE
To: se fariasdemenezes
Estimada amiga Sé:
Obrigada por suas palavras amigas. (...) Por isso
detesto o uso/abuso dos celulares, que levam a uma
atitude imediatista sem reflexão.
Sobre as amizades atuais, penso diferente. Em todas as
épocas, há indivíduos interesseiros, assim como pessoas
que se dispõem a cultivar as suas amizades por motivos
de estima, companhia e valores semelhantes ou que se
dispõem a crescer com os amigos.
Fiquem com Deus e tudo de bom para vocês, no Ano Novo de
2009, sobretudo saúde, tranquilidade, paz, união e
solidariedade, além de compreensão das verdadeiras
prioridades e dos valores essenciais, autênticos de
nossa vida.
Carinhosamente,
Therezita
(Theresa Catharina)
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2008/12/28 se fariasdemenezes
Theresita, dois poemas lindíssimos. Muito obrigada pela
atenção. Foram duas surpresas gostosas. Sua fala pelo
telefone e as suas poesias. É uma amizade sincera, a
nossa. Hoje, me parece, as amizades são mais
interesseiras.
Que Deus nos abençoe e a todos os nossos familiares. A
vida é bela . E façamos desta beleza a nossa meta de
vida.
Com o abraço sincero e amigo de Sé.
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SONHOS DESFEITOS NÃO MATAM IDEAIS
Dedicado a Áureo César Coelho do Valle*
Sonhos desfeitos ,
como as perdas e ausências
de entes queridos,
são golpes da vida,
mas nenhuma dessas tristezas
tão profundas quanto o sofrimento
que nos infligem, dolorosamente,
têm o poder de matar
nossos valores, nossos ideais.
Somente nós temos,
de acordo com a nossa vontade,
nossa fraqueza e ganância,
o poder de matar, destruir
nossos princípios, nossos ideais.
Sim, não adianta negar:
reconhecer precisamos
que desculpa não há
para nossas indecisões,
os silêncios de omissão,
as fraquezas e indignas ações.
Porque apenas nós podemos
silenciar, esquecer e matar,
nossos valores, nossos ideais.
Cabe a nós protegê-los,
fortalecer nossa vontade,
fugir da ganância e do mal,
para que esses princípios
além da morte sejam cultivados .
Porque são a nossa herança,
nosso maior patrimônio,
para nós e outras gerações.
Vivem além da morte,
nossos valores, nossos ideais.
Os sonhos desfeitos nos trazem lágrimas.
Os ideais e valores as enxugam
e de novo para a vida nos despertam.
Que desculpa é essa,
de que as ilusões,
os muitos sonhos desfeitos,
fizeram ruir princípios,
ideais e valores...
se nem a morte pode
destruí-los?
Sonhos desfeitos
vêm com o dom da vida,
assim como as perdas,
tão inevitáveis como dolorosas.
Mas ideais e valores nascem
de nossa vontade e decisão,
de nosso caráter cultivado
ao longo da vida, antes de
mergulharmos na luz invisível,
desconhecida, da eternidade.
Quando somente o espírito -
a alma vencedora, imortal -
em sua plenitude existir,
nossos ideais e valores
permanecerão com vida,
falando em nosso nome,
luminosos como a estrela de Belém,
apontando o caminho, orientando,
em honra a nós construindo.
Porque sonhos desfeitos
ideais não matam ...
os sonhos renovam,
ideais reafirmam,
valores consolidam.
Na verdade, sonhos desfeitos
nos dão a maravilhosa oportunidade
de nos fazer repetir ,
com a fé da rotina heróica,
a essência do melhor
que cultivamos em nós.
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília -DF, 26 de dezembro de 2008
*SOBRE O MEU POEMA "SONHOS DESFEITOS NÃO MATAM IDEAIS"
Escrevi "Sonhos desfeitos não matam ideais" porque o
economista, auditor da receita federal e professor Áureo
César Coelho do Valle, em 10 de dezembro/2008, relembrou
como eu era na Faculdade...suas palavras me decidiram a
registrar o que ele falou, sua afirmação de que , ao ler
o meu livro mais recente - " Pensamentos para ser, agir
e viver melhor", confirmou que ali estavam os mesmos
valores e ideais que eu tinha, quando nos tornamos
colegas e amigos, no Curso de Jornalismo (FNFi -
Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do RJ
), desde março de 1963...e que me tornei a cada dia mais
determinada na minha fé. Fiquei profundamente comovida
quando Áureo César , de forma espontânea, fez esse
comentário.
Estávamos os três - ele, sua esposa Ione e eu sentados à
mesa de sua hospitaleira cozinha, compartilhando uma
refeição deliciosa. Que generosa hospitalidade - me
receberem em sua residência - e dizer essas palavras que
tanto me emocionaram! Só mesmo na casa de amigos se tem
uma experiência afetuosa como a que vivenciei, uma
autêntica dádiva de Natal, merecedora de registro porque
perdura para sempre em nossa memória, em nosso coração.
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília -DF, 28 de dezembro de 2008
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2008/12/26
Subject: Re:SONHOS DESFEITOS NÃO MATAM IDEAIS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Olá, Theresa Catharina:
(...) Concordo plenamente com você, que sonhos não matam
ideais. Até, Luci
From:
Faustino Vicente
Date: 2008/12/26
Subject: RES: SONHOS DESFEITOS NÃO MATAM IDEAIS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Dra. Theresa Catharina de Góes Campos
Parabéns, obrigado, pela belíssima poesia. Que a Paz do
Senhor esteja contigo em todos os dias de 2009.
Fraternalmente em Cristo,
Faustino Vicente - aqui...da Terra da Uva. Jundiaí -SP
MENSAGEM
RECEBIDA DO JAPÃO
From:
Juliana Taroda
Date: 2008/12/27
Subject: Re: SONHOS DESFEITOS NÃO MATAM IDEAIS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Dona Theresa Catharina:
Muito lindo, verdadeiro e uma lição pra todos.
Um grande abraço, aqui do outro lado do mundo.
Juliana
From:
Theresa Catharina de Goes Campos
Date: 2008/12/28
Subject: Grata por sua revisão competente, decidi pelo
seu conselho
Re: SONHOS DESFEITOS NÃO MATAM IDEAIS
To: adfalcao
Amiga Ana:
Só tenho a dizer "muito obrigada " a você por mais esta
generosa revisão, aceitando eu o seu conselho.
Sinto-me contente em saber que você aprecia os meus
poemas. Os versos
saem do meu coração e da minha experiência pessoal e
profissional, deveriam ser apenas para mim, no entanto,
penso que escritores, poetas e todos os artistas
(cênicos e plásticos) precisam se comunicar com o
público, com leitores, familiares e amigos, outros
artistas e críticos.
Longe de mim pretender ensinar a outras pessoas como
viver a sua vida. Acontece, porém, que meus textos e
versos são o que tenho para dar ao próximo. Aí, não há
mesmo uma boa desculpa para silenciar. Talvez sejam uma
das poucas razões para a minha existência e
sobrevivência até esta data.
Analisando a minha vida, até reconheço que passei tempo
demais no silêncio... (houve décadas de silêncio total,
absoluto) e as muitas desculpas, os graves motivos nem a
mim agora me parecem, de fato, satisfatórios.
Eu é que lhe devo sinceros agradecimentos.
Abraços cordiais de
Theresa Catharina
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008/12/27 adfalcao
Theresa, você nos transmite muitas fórmulas e
ensinamentos por meio de suas poesias. Obrigada. Ana
P.S.: Pense em "fortalecer" nossas vontades. Você
decide. Beijos Ana
2008/12/26 REYNALDO
FERREIRA
Prezada Theresa Catharina, (...) Antes de terminar,
gostaria de cumprimentá-la pelo belo poema "Sonhos
Desfeitos Não Matam Ideais". Feliz Ano Novo. Abraços,
Reynaldo
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PARA ONDE MANDAR A TRISTEZA?
Encontrei a tristeza dentro de mim.
Fiquei assustada.
Amedrontada, ansiosa,
sem saber o que fazer...
Como tantas pessoas humildes
que visitei em suas palhoças,
decidi matutar, matutar,
para ver o que fazer
amanhã, depois de amanhã...
Pensei em mandá-la exilada
para qualquer lugar desterrada,
desde que mais distante fosse...
Outra idéia foi torná-la reclusa,
em solitária permanente.
Morte por fuzilamento, nem pensar!
(Aliás, nenhuma morte, a não ser a natural,
eu poderia aceitar, ressalto convicta.
Aí o caso ficou difícil de resolver,
bem complicado, de fato.
Continuando a matutar,
vislumbrei algumas soluções:
mandá-la viajar para bem longe
foi a primeira alternativa.
Se a tristeza implicasse
com o destino e as escalas da viagem,
eu proporia que ela apresentasse
seus próprios roteiros.
Mas com uma única exigência
de minha parte: seus planos
não poderiam incluir continuar
morando comigo.
As outras idéias seriam aceitáveis,
consideradas justas por mim,
que continuava intimidada com a tristeza,
sitiada por sua persistência,
um verdadeiro cavalo-de-tróia,
ferindo meu "calcanhar-de aquiles",
meu frágil coração.
Ora, ora, a tristeza também decidiu
matutar, matutar, à beira de seu casebre
instalado dentro de mim,
afirmando eu que ela invadira
(jamais obtivera minha autorização)
inesperadamente meu corpo,
coração...e, na sua petulância
plena de disfarces e máscaras
inusitadas, dramáticas,
chegando aos poucos, de pouquinho,
até a dominar minha mente! -
enquanto eu matutava, matutava,
para depois ocupar bastante espaço.
Não lhe pertencia, o lugar em que vivia
nos meus domínios.Não era dela!
continuo a dizer, chorando,
muitas vezes aos gritos,
reafirmando eu, ainda assustada,
que deveria sair sem mais delongas,
sem matutar mais, por favor!
Ora, ora, depois de muito matutar, matutar,
a tristeza resolveu se defender
de minhas acusações tão agressivas
(seriam histéricas? vou matutar,
matutar, antes de meu comportamento analisar...)
Em sua defesa, a tristeza argumentou
que eu estava muito esquecida...
ou talvez fosse fingimento meu ...
porque ela se "alembrava" bem,
não tinha esquecido, não,
ela se "alembrava direitinho":
recebera meu convite, e aceitara!
Por que não? Agora era minha hóspede,
sem data certa para sair...
em casa tão agradável, com generosa dona.
Como estava gostando de minha hospitalidade...
sim, era sempre bem tratada, ressaltou
a tristeza com repentino atrevimento:
com educação, cortesia, como ela merecia!
E eu ansiosa, a matutar, a matutar,
suando frio, a matutar sem parar,
o dia todo pensando, atormentada ,
como parar de matutar, matutar
e uma solução imediata encontrar.
Enquanto eu matutava, matutava,
dentro ou fora de casa,
sonhando ou bem acordada,
a tristeza tomava conta de mim,
se apossando de todos os espaços
possíveis e disponíveis!
Como enfrentá-la? Como expulsar
um falso hóspede, sem convite?
Enquanto eu matutava, servia café,
chá de hortelã, sobre o tempo conversava.
Depois de muito matutar,
apesar de minha pressa,
cheguei à conclusão,
talvez arriscada, não sei,
em favor da não-expulsão
de uma tristeza tão pacífica,
sem agressividade e companheira.
Uma tristeza melancólica, ainda
não-depressiva, companheira...
O resultado de tanto matutar
foi a realidade da vida aceitar.
Dei permissão para a tristeza ficar,
porém, assumindo a coragem
necessária, fundamental a todas as vidas,
seus limites em minha casa demarquei,
seu espaço reduzido indiquei,
sem hesitação, sem mais matutar,
não mais silenciosa, alienada,
conscientemente falei e agi.
E aí, sim, fiz um convite formal, sincero,
para um hóspede querido em minha casa,
que teria quase todos os privilégios renovados
periodicamente:a alegria faceira, sábia, companheira
para conviver sem atritos com a tristeza.
A alegria que também inspira os seres humanos
a grandes realizações, fortalecendo-os nos sonhos,
e fica matutando, matutando, sobre os segredos
de toda existência: tantos caminhos difíceis
que tristeza e alegria percorrem juntos.
(Ora, ora, que tanto matutar é esse?!
Ufa, agora chega de matutar!)
Theresa Catharina de Góes Campos
(1966) Ilha do Bananal - Goiás (desde 1988, Estado do
Tocantins)
From:
artemis coelho
Date: 2008/12/27
Subject: RE: PARA ONDE MANDAR A TRISTEZA?
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Um embate e tanto! Ótimo,cheguei a imaginar um
monólogo/diálogo teatral; e prá minha surpresa, de 1966!
e Ilha do Bananal! haja surpresas...
Fiquei encantada de vc usar o 'matutar' de que tanto
gosto. Não sei se já te mandei um poeminha sobre a
palavra, tomara não ser repetitiva, "voilà"...
MATUTAR
Artemis Coelho
Só pode matutar quem é matuto.
Só é matuto quem sabe que nada sabe,
Só matuta.
Somente quem pensa que sabe
Sabe o que é um matuto.
Mas o que o matuto de fato não sabe.
É que quem pensa que sabe o que é um matuto,
nada sabe...
Pensando saber tudo.
From:
Dolinha
Date: 2008/12/27
Subject: Re: PARA ONDE MANDAR A TRISTEZA?
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Querida amiga
(...) a sua poesia me calou fundo e me abriu lembranças,
de 1966. Na Universidade de Brasília (UnB), eu era sua
aluna de Jornalismo, e a admirava como hoje.
Com carinho
Dolinha
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2008/12/31
Subject: Re: PARA ONDE MANDAR A TRISTEZA?
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Theresa Catharina:
A vida te tornou uma filósofa de mão cheia. Luci
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ACIDENTE EM XAVANTINA
Ao descermos do pequeno pássaro,
o Cessna diminuto no céu imenso,
soubemos que precisaríamos trabalhar
com menos recursos do que habitualmente.
Não poderíamos contar com veículo algum,
desta vez, para nosso transporte e dos materiais.
Deveríamos, desta vez, nos movimentar
sem a ajuda do jipe e do caminhão.
Fui a primeira a indagar
o porquê da situação
ainda mais precária
do que as condições
de costumeira escassez
dos recursos mínimos.
Esperava uma resposta
com desculpas meio absurdas,
nada objetivas, enfim,
eu não estava aceitando mesmo
a ausência do jipe e do caminhão,
os únicos veículos da localidade.
No entanto, a informação que
de pronto me transmitiram
deixou-me boquiaberta...
antes de explodir em risadas,
sem acreditar mesmo na
história que me pareceu
de todo mirabolante.
Até imaginei ser um trote, uma brincadeira
para enganar a jornalista recém-formada.
Quando insistiram no "causo"
estranho, inusitado, quase surreal,
voltei às minhas risadas...
Quando eu conseguia falar,
perguntava: mas como isso aconteceu?
Não há trânsito aqui!
Apenas dois veículos circulam,
os únicos de Xavantina:
o jipe e o caminhão!
Como podem ter se chocado?
Os motoristas estavam cegos?
Estariam dormindo, cansados?
Tranqüilos, bem tranqüilos,
na maior calma do mundo,
com toda a naturalidade,
confirmaram: o choque ocorreu
porque ambos os motoristas
dirigiam em alta velocidade,
ambos sabendo serem os únicos
existentes em Xavantina,
pensando ambos, igualmente,
que não encontrariam o outro veículo.
Acharam ambos que não haveria
tal possibilidade de perigo...
Aliás, saíram com ferimentos leves
do acidente para eles inesperado,
mas os veículos ficaram inoperantes,
porque bastante danificados.
Consegui parar de rir,
diante de tal absurdo,
passando a reclamar
de tamanha irresponsabilidade.
Assim, não houve outro jeito:
fomos caminhando todos...
com a nossa bagagem pessoal
e materiais de trabalho,
e os atenciosos funcionários
da Fundação Brasil Central
auxiliando a levar outros volumes,
uma carga preciosa porque útil,
tão esperada e necessária.
Todos (menos eu, apenas conformada
porque não havia alternativa)
muito resignados, pacientes, tranqüilos,
tudo encarando com a maior naturalidade,
no seu contexto habitual de carências e absurdos.
Theresa Catharina de Góes Campos
Xavantina (desde 3/3/1980, Nova Xavantina) - Mato
Grosso, 1966.
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2008/12/31
Subject: Re: cd-poesias)ACIDENTE EM XAVANTINA - Theresa
Catharina de Góes Campos
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Olha só!
Quanto descuido de ambas as partes, num lugar sem
trânsito. E, que coincidência, einhn!
É um alerta para nós. Obrigada! Luci
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SEM FÔLEGO
Sem fôlego, tal a vastidão
que percorro do alto, embevecida,
o imenso espaço de árvores e rios,
durante o vôo no pequeno Cessna
para chegar a Aragarças.
Aperta-me agora o coração
na aterrissagem sem problemas
de nosso pequeno pássaro,
habilmente tripulado por jovem piloto,
experiente e conhecedor dessa rota.
Em terra como no ar,
parece-me que os colegas
não se sentem como eu.
Ou talvez escondam
seus reais sentimentos.
Ou, mais experientes,
se controlem sem dificuldade.
Nada lhes parece inusitado.
Nada consideram insólito.
Cumprem suas funções regulares
com tranquilidade, apesar
do muito que é preciso fazer.
Acostumados demais à rotina
ou talvez já bastante desiludidos.
Quando esqueço a beleza do vôo,
a visão das distâncias
sem ocupação demográfica,
o peito me dói sem cessar,
ao perceber o chocante abandono,
com tantas carências da população
em suas necessidades básicas
de habitação ,saúde, educação...
ao ver o povo sem os seus direitos
elementares pelo Estado negligenciados.
Impossível, porém, não constatar
com muita admiração,
a dignidade de valores fundamentais,
a coragem de nossa gente indômita,
embora resignada e tão sofrida.
Em casa e na escola,
tudo parece faltar,
menos a responsabilidade dos professores,
tão humildes quanto determinados,
dia após dia trabalhando
com o mínimo disponível
(com frequência, falta até o mínimo!).
Deverei voltar outras vezes,
com meus olhos de jornalista
buscando se houve melhorias
para esses meus compatriotas.
Estremeço, já angustiada,
antevendo seus rostos
precocemente envelhecidos,
sua aflição envergonhada,
a índole bondosa, hospitaleira,
com certeza esperando
(mas tão longe da realidade!)
que sejamos nós a trazer
as mudanças com que tanto sonham...
Descerei do Cessna ainda mais
sem fôlego, já angustiada,
com o coração doendo, mais
apertado do que na primeira vez.
Meus textos fazem perguntas...
As soluções demoram.
Mal poderei, sem angústia,
na próxima viagem, abrir os olhos ...
porque talvez eu vá me deparar
com a mesma situação deplorável.
Anseio profundamente por essas mudanças,
por melhorias na vida das pessoas
que agora estão a me rodear,
me oferecendo um sorriso aberto,
silencioso e desdentado.
Voltarei a ficar sem fôlego,
de coração apertado, doendo,
porque a Faculdade não me preparou
para situação tão dolorosa.
Mas essa minha desculpa,
embora verdadeira, não é desculpa,
nem me exime de responsabilidade.
Theresa Catharina de Góes Campos
Aragarças-Goiás, 1966.
From:
Theresa Catharina de Goes Campos
Date: 2008/12/29
Subject: Ficou muito melhor o meu verso, realmente, Ana,
revisado com
a sua sugestão - obrigada, mais uma vez! Re: SEM FÔLEGO
To: adfalcao
Estimada Ana:
Muitíssimo obrigada! Revisado de acordo com a sua ótima
sugestão, o verso ficou muito melhor, realmente.
Aliás, as suas sugestões estão sendo registradas nos
meus sites e no cd-rom Existe Vida sem Poesia?
Abraços afetuosos da amiga
Theresa Catharina
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2008/12/29 adfalcao
Theresa, sua preocupação com os outros vem de longa
data.
Fico sem graça de apresentar sugestões, tão belos são
seus versos, mas, como lhe disse, quero o melhor para
você.
Pense em "ao ver o povo sem seus direitos". Abraços Ana
From:
Virginia Silva
Date: 2008/12/29
Subject: Re: SEM FÔLEGO
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Lindo!!!! Catharina,você retratou muito bem o sofrimento
do nosso povo que mora tão longe,mas que sabe lutar com
muita garra pra sobreviver.Parabéns!!! Gostei. Abçs,Virginia
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PERGUNTAS EM BUSCA DE RESPOSTAS
A realidade da vida me desafia
nas perguntas que buscam respostas.
Porque ambas mistérios cantam,
ambas, enigmas silenciam,
escondem muitas palavras,
com tanto medo de falar...
Ou seria porque essas palavras
ao temeroso coração nada diriam,
a sete chaves tudo guardariam?
Perguntar à semente sobre a árvore
que traz, pequenina, dentro de si,
ainda invisível, silenciosa, seria inútil.
Nem o vento a balançar
todas as frágeis, coloridas folhas
consegue uma resposta -
apenas sente a beleza...
e se dá por satisfeito !
Nada questiona à natureza,
apenas beija formas e cores,
se diz satisfeito com o que vê!
O vento segue falando,
cantando a sua canção,
sussurrando,embalando,
sem perguntas fazer,
cumprindo a sua missão.
Theresa Catharina de Góes Campos
Vermont, Wisconsin (EUA), setembro de 1971.
From:
Raquelc
Date: 2009/1/6
Subject: PERGUNTAS EM BUSCA DE RESPOSTAS
To: Theresa
Theresita,
Acho, realmente, que um dia teremos as respostas às
nossas perguntas e encontraremos o bálsamo para nossas
angústias. Beijo grande, Raquel.
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NOSSO DESTINO NAS PALAVRAS
Com as palavras
somos amados.
Também com elas
somos perseguidos.
Verbalmente se é agredido,
caluniado, crucificado,
em vida e depois da morte.
Esperemos que as palavras
sejam uma defesa para nós;
inspiração que não esmoreça,
razão de muitas lutas idealistas.
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília-DF, 26 de setembro de 2008.
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O OUTRO SOU EU
Somos nós, o próximo.
O outro sou eu...
no meu coração pulsando,
nas minhas veias fluindo,
como eco ressoando.
Quando iremos viver,
agir, decidir, conviver
com essa realidade
da condição humana?!
Esse é o prisma, indiscutível,
o contexto, a circunstância,
a perspectiva básica,
o fundamento e a essência
de nossa frágil existência
com limites individuais
se revelando comunitários.
A base, o alicerce ético
de toda civilização humana:
a identidade com o próximo,
nosso eu solidário.
O essencial para estabelecer
nossa rotina e os momentos,
os dias extraordinários
de nossas vidas individuais
que também são coletivas.
Semelhantes e únicos,
somos nós em todo lugar.
Ecos, sombra e pulsações,
nas batidas do coração.
Meu próximo sou eu,
que o outro sou igualmente.
Revelados nele os segredos.
Nele inserido, nele completado;
embora tão imperfeitos,
originais e tão criativos .
Meu próximo sou eu,
espelho e fonte de luz.
No próximo estamos nós,
sem poder negar que somos
irmãos. Para sempre irmãos!
Theresa Catharina de Góes Campos
Hampton, New Hampshire (EUA), outubro de 1971.
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2009/1/5
Subject: Re: cd-poesias+SITES)) O OUTRO SOU EU
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Feliz 2009!
Parabéns pelas suas belas poesias. Quando você virá a
SP? Gostaríamos de almoçar juntas, para iniciarmos bem o
ano novo. Luci
From:
Tereza Lúcia Halliday
Date: 2009/1/8
Subject: Re:O OUTRO SOU EU
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Theresita:
Muito obrigada por compartilhar este "outro eu" e demais
poemas recebidos recentemente.
Muito obrigada por seu Jornalismo com Ética e
Solidariedade.
Aí vai no anexo o último artigo da trilogia do ciclo
natalino.
Com o carinho e a admiração de
Tereza Lúcia
From:
artemis coelho
Date: 2009/2/26
Subject: RE: O OUTRO SOU EU - Theresa Catharina de Góes
Campos
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Acho que deixei de comentar o quanto acho bonito esse
poema... Procurava um outro, "O bebê e as brincadeiras
do sol", para comparar com "A visita do sol ao quarto do
bebê" porque são muito 'fofos' e reencontrei "O outro
sou eu" ...Deixo então registrado meu bem querer por
esse último. Artemis
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AS VEIAS INVISÍVEIS DO CORAÇÃO
Onde e como tocar
as veias invisíveis do coração?
Cadê o mapa, cadê?
Sei não, como chegar
a meu coração descontrolado...
Onde estão os caminhos?
Quem tem os roteiros,
as palavras e os cantos?
Ele não sabe, nem eu...
Nem eu sei ! Sei não...
Como vou saber?
Já vou logo dizendo
que não sei mesmo
o coração decifrar.
Se o coração vive escondido,
só perguntando, sem responder,
como se pode qualquer coisa saber
dessas veias invisíveis
que os olhos não vêem,
as mãos desconhecem?
É muito mistério, enigma demais
pra minha cabeça inquieta,
que vive se recusando
a brigar com o coração!
Por que tanto medo de enfrentar
quem não se vê nem ao luar,
nem quando o sol chega
para também tentar?
Por que a mente não esclarece,
não abre o caminho?
Sei não, sei não...
Eles não sabem, nem eu!
Como chegar a uma decisão,
fazer um mapa, um roteiro,
se o coração não fala,
só faz bater, bater,
pulsar, pular como louco,
sem nada para dizer,
tão escondido como a semente
do fruto, da árvore e da flor?
Sei não, é mistério...
Ela não sabe, nem eu...
Se ninguém me contou...
nem chave eu recebi
para abrir a tal porta
que se diz haver no coração,
como vou encontrar
essas veias invisíveis do coração?
Como eu saberia,
se não vi mapa nem roteiro
dessas veias invisíveis do coração?
Sei não, sei não, acho que não...
Acho que sim, ou não sei não...
Vá desistindo de me pressionar
porque não adianta insistir...
Não tenho resposta
porque nem há como perguntar!
Sei não, não sei mesmo...
Estou ainda por descobrir
se há música escondida
nos meandros do coração.
Talvez sim, talvez não,
vou apurar os ouvidos...
Nada sei, reconheço,
sei não...sei não...
Se tantos não sabem
o coração decifrar,
como vou eu saber?
Acreditem: eu também não sei!
Eles não sabem, nem eu!
Deve ser mesmo muito difícil,
em qualquer idade e lugar,
um coração entender!
Theresa Catharina de Góes Campos
Água Preta, Pernambuco, fevereiro de 1962
(Estávamos sentados na varanda de uma residência, em
Água Preta, um lugarejo onde a família nos oferecera
hospitalidade, em apoio ao movimento estudantil do qual
fazíamos parte, como líderes da entidade estadual
pernambucana. Conversávamos baixinho, para não perturbar
os donos da casa, nossos anfitriões, de quem já nos
tínhamos despedido, com palavras de agradecimento, pois
precisavam dormir e, no dia seguinte, realizar os seus
trabalhos rotineiros. Dulce, Ricardo e Paulo Gileno,
assim como eu, tentávamos não adormecer, apesar de muito
cansados, porque o trem passaria de madrugada, antes do
alvorecer, e precisávamos regressar a Recife. Aquelas
horas no alpendre, tão agradáveis, apesar da fadiga,
foram momentos de confidências partilhadas na maior
confiança. Quando um cochilava, os outros ficavam
atentos... Ali, no alpendre, éramos jovens idealistas,
unidos também pela amizade... às vezes amadurecidos e
fortes, outras vezes bem frágeis...)
Theresa Catharina
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PARA O MAPA DA VIDA DECIFRAR
Deus fez o mapa de nossas vidas ...
somente Ele conhece
para onde nossos passos
finalmente vão nos levar.
Para o mapa de sua vida entender,
nas suas grutas, nos recuos e meandros,
basta a Deus, o Senhor do Tempo, entregar,
em Suas mãos abertas, os dias e as horas.
Porque não temos o código final,
nem as senhas eventuais nos são conhecidas.
Nem dos minutos, que sem medo vivemos,
de segundo em segundo, conhecemos
seu mais simples desfecho.
Talvez adiante, quem sabe no futuro,
compreender possamos
todas as dores, os sofrimentos,
as sombras que não pudemos recusar,
os porquês sem consolo algum,
os momentos que tentamos rejeitar,
embora esse direito não tivéssemos,
na condição humana fragilizados.
Para o mapa de nossa vida decifrar,
precisamos com paciência esperar
que o tempo nos ensine, passo a passo.
Não adianta pressa, porque ainda
que o tempo corra, não pare jamais,
as lições só chegam com o passar do tempo.
Muitas vezes, de repente, quando já desistimos
de nossa existência saber compreender,
as respostas chegam, de mansinho,
para enxugar nossas lágrimas.
Para o mapa de nossa vida decifrar,
faz-se mister em Deus depositar
toda a confiança que nos falta.
Nosso bastão é a esperança,
para não desistir de caminhar,
embora quase cegos, sem saber,
tantas vezes trêmulos, desiludidos,
para onde nossa existência,
com tantas dúvidas, nos vai levar.
O Senhor do Tempo e Senhor da História
está sempre, como Pastor, a nos guiar,
não nos deixando abandonados, sozinhos
para, sem aparente defesa, contra o mal lutar.
Ele, o Mestre, vencedor das Trevas,
em Sua química de amor,
transformará nossos erros e desacertos,
para nos conduzir à luz da imortal vitória.
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília - DF, 11 de janeiro de 2009.
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2009/1/15
Subject: Re: PARA O MAPA DA VIDA DECIFRAR
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Theresa Catharina:
Suas considerações são muito sensíveis e belas. Luci
From:
Theresa Catharina de Goes Campos
Date: 2009/1/30
Subject: Sugiro "entregar," seguido de vírgula.Re: PARA
O MAPA DA VIDA
DECIFRAR
To: adfalcao
Cara amiga Ana:
Já fiz a correção no poema e logo enviarei ao Walter,
para corrigir nos sites e no cd-rom/ livro "Existe Vida
sem Poesia?" .
Obrigada, sobretudo porque eu gosto de observar a devida
pontuação gramatical no que escrevo, portanto, também
nas poesias. Foi mesmo uma falta de atenção, de minha
parte, não ver que você, ao me fazer a sua ótima
sugestão, colocou a vírgula que eu não escrevera no
original do poema " Para o mapa da vida decifrar" .
Desculpe esta senhora de 64 anos... Confesso que li sua
mensagem mais de uma vez, sem enxergar a vírgula, tão
visível.
Sobre o meu desabafo, quis realmente transmitir a
importância desses versos recentes, pois, de fato, me
levantaram do chão de minha agonia latejante (não estou
exagerando, acredite!). Pensei que eu não ia conseguir
sobreviver a tão maldosas, caluniosas provocações.
Quando o poema chegou a mim, a meu coração tão magoado,
compreendi o que eu não conseguia entender , na minha
vida, há quase 37 anos... E me reergui, já fortalecida,
aceitando muitos fatos, inclusive separações tão
profundas, acontecimentos surpreendentes, inexplicáveis,
que me eram extremamente difíceis de aceitar, há quase
quatro décadas.
Abraços carinhosos e a estima de
Theresa Catharina
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From:
adfalcao
Date: 2009/1/29
Subject: Re:Só não entendi : Sugiro "entregar".Re:PARA O
MAPA DA VIDA
DECIFRAR
To: "theresa.files"
Trata-se de "entregar" seguido de vírgula. Desculpe-me
se não fui clara. Com muitíssima emoção, li seu desabafo
e não posso compreender como chega a tal ponto a maldade
humana. Imagino-a chorando de tanta dor.
Abraços Ana
--------------
De:"Theresa
Catharina de Goes Campos"
Data:Thu, 29 Jan 2009 19:18:04 -0200
Assunto:Re: PARA O MAPA DA VIDA DECIFRAR
Cara amiga Ana:
Obrigada por sua mensagem, assim como por sua
interpretação e os seus comentários, sempre muito
bem-vindos. Só fiquei sem entender...(...)
Como eu encontrei "entregar", entre os versos da poesia,
estou meio perdida quanto à sua sugestão.
Vou lhe revelar as circunstâncias terríveis que me
levaram a escrever este poema. (...) Se você preferir
não ler os parágrafos seguintes, por favor, não leia
mais, a partir daqui... (...)
Fiquei arrasada, avaliando que eu recebera, então, meu
"golpe de misericórdia", do qual eu não poderia mais
sobreviver. Só parei de chorar e soluçar quando pensei
que eu poderia ficar doente outra vez. Assustada, com
medo de enfrentar, novamente, doenças graves, fui me
acalmando.
Dois dias depois, escrevi "Para o mapa da vida
decifrar", porque entendi claramente o porquê da
distância, da separação (...)
No entanto, não tenho mesmo forças para reagir. Penso
até que tudo isso é uma provocação... e que meu silêncio
será melhor. Como diz a Bíblia :" A vingança cabe a
Deus". (...)
Quão diferentes são os meus poemas, os meus textos ! - e
me sinto feliz por isso.
Com esses poemas mais recentes - "Haikais do Perdão" e
"Para o mapa da vida decifrar", pude me levantar, após
sofrer esse golpe maior, que seria meu "golpe de
misericórdia", o golpe final... e até consegui comemorar
meus 64 anos, no dia 13, ao lado de familiares e amigos.
(...) estou bem, graças a Deus!
Desejando-lhe tudo de bom, abraços carinhosos de
Theresa Catharina
-------------------
2009/1/29 adfalcao:
Theresa, desculpe-me por não ter lido há mais tempo seu
poema bem recente.
Agora, em Brasília, atualizo a troca de idéias com os
amigos.
Nele você apresenta seus sentimentos de dor , ligada ao
desconhecido, à necessidade de ter paciência,
compreensão, ao sofrimento, mas os contrapõe à
esperança, fé, luta, ao amor e, finalmente, à luz .
Mais uma lição de vida que você nos transmite.
Sugiro "entregar,". Obrigada pelos bons momentos.
Sua amiga, Ana
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NÃO DIREI "NÃO" A DEUS
Não direi "não" a Deus...
nem a pau!
- " Que bobagem é essa,
menina tola, falando sozinha?
Isso não é poema ! "
Vou pensando, silenciosa:
sim, não é poesia.
Parece um soluço, só,
soluço de lágrimas,
reconheço, desolada,
bastante desconfiada:
não é poema, não.
Como Deus não dorme,
estava a me escutar...
- " Pode continuar, filha!
Não dê ouvidos a quem
não gosta de poesia.
Vá tentando e lá chegará,
lhe garanto Eu .
A jornada vai ser longa,
continue caminhando,
sempre a sorrir e pra frente,
escrevendo seus versinhos.
Não desvie de sua rota,
não vá desanimar:
acolha o seu caminho,
por ele se entusiasme.
Não fique parada, não -
esse é o segredo maior
de tudo realizar. "
Não direi "não" a Deus...
nem a pau!
Ele me conhece,
como conhece você,
na palma de Sua mão,
nos recôncavos de Seu coração,
desde o início dos tempos,
mais profundamente do que nós
poderemos nos desvendar.
Não direi "não" a Deus...
nem a pau !
Se, enlouquecida,
um dia eu lhe disser "não",
sei que do meu "sim"
Ele não vai jamais desistir!
Theresa Catharina de Góes Campos
Arcoverde-Pernambuco, junho de 1962
From:
elizabeth barros
Date: 2009/1/11
Subject: Re: NÃO DIREI " NÃO " A DEUS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Tia, tenho lido todas as suas poesias, são lindas.
Parabéns! Sua sobrinha, Elizabeth.
From:
artemis coelho
Date: 2009/1/11
Subject: RE: NÃO DIREI "NÃO" A DEUS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Olá Theresa, obrigada por todo o seu material enviado.
Sempre coisa boa. Seus poemas sempre maravilhosos. Esse
vou postar no meu bloguinho.
Fica com Deus. Boa semana,
Artemis
From:
Sergio Luiz Clemente Ferreira
Date: 2009/1/12
Subject: Re: NÃO DIREI "NÃO" A DEUS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Olá, Theresa Catharina,
NÃO DIREI "NÃO" A DEUS
Mas que maravilha!
É uma das coisas mais bonitas que já li.
Sérgio Clemente.
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2009/1/15
Subject: Re: NÃO DIREI "NÃO" A DEUS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Theresa Catharina:
Sua fé é admirável! Luci
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O CORPO VOA... E O ESPÍRITO?
Embarca o corpo com destino certo ou talvez incerto. Vestimos o corpo para o destino sonhado, esquematizado, planejado, com ou sem escalas de surpresa ou escolhidas. Preparamos o corpo e a sua bagagem muitas vezes excessiva, visando às aparências, fazendo antecipação do que enfrentaremos.
O espírito também voa... ainda que o corpo não voe, fique parado, imóvel, em suas reconhecidas limitações.
O espírito sempre pode ir bem mais longe que o corpo. O espírito com certeza pode ver com maior profundidade a invisível verdade, o coração escondido, as palavras não registradas, nem mesmo pronunciadas ou não escutadas, as imagens ainda não definidas, não fotografadas, nem filmadas.
Porque o espíito é mais forte que o corpo fragilizado por sua condição humana.
Os voos espirituais começam em sonhos de velocidade supersônica inacreditável, imensurável.
As viagens do espírito são pioneiras, desbravadoras. Aventuras inesquecíveis, expedições memoráveis a regiões inexploradas.
Theresa Catharina de Góes Campos Araruama-RJ, dezembro de 1963
From:
artemis coelho
Date: 2009/1/17
Subject: RE: O CORPO VOA... E O ESPÍRITO?
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Dona moça viajante! Quem disse que o corpo não vôa? Olhe
o seu, por exemplo, para minha surpresa, Araruama!
Prometo não me admirar quando encontrar um poema seu em
Cingapura! Esse,lindo, me deu até vontade de fazer as
malas e...viajar! E por falar em alma ou espírito que
vôa, tenho um pequenininho que fala um pouco disso
também, veja se gosta:
Minha alma às vêzes vôa, livremente,
como se, sem dono,
vôa, liberta-se e plana no céus de sua escolha.
Minha alma com penas de voar, e de mim,
sempre volta.
Vôa e volta porque sabe que meu corpo
atado à terra, tem fome dela.
E como um pássaro de volta à sua gaiola,
me alegra e me alimenta.
Mas meu corpo atado à carne e à terra,
se esquece dela...
E ela morre, às vezes, de fome e sede.
Artemis Coelho
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2009/1/19
Subject: Re: O CORPO VOA...E O ESPÍRITO?
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Theresa Catharina:
É a razão para que todos fortifiquem seus espíritos.
Até, Luci
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HAIKAIS DO PERDÃO
Sendo a vingança, de Deus,
não há alternativa,
só nos cabe o perdão !
Encurralados pelo desamor,
da vingança proibidos,
só o perdão nos é permitido.
Ainda que sejamos
golpeados e caluniados,
só existe o caminho do amor.
Surpreendidos pelo desamor,
só nos cabe chorar
e reagir com amor.
A rebeldia do cristão,
neste mundo enlouquecido,
está na ousadia do perdão.
Nem sangue nem tiros
nos são permitidos:
só o amor e o perdão.
Nem mentiras e baixarias
podem ser nossas armas:
só palavras de perdão.
A rebeldia do cristão,
neste mundo ensandecido,
está na coragem do amor.
Theresa Catharina de Góes Campos
Brasília-DF, 13 de janeiro de 2009
From:
Faustino Vicente
Date: 2009/1/17
Subject: RES: HAIKAIS DO PERDÃO
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Dra. Theresa Catharina de Góes Campos:
Grato pelas suas mensagens. Elas sempre agregam valores.
Que o dia amanheça (sempre) sorrindo para a senhora e
para os seus familiares.
Faustino Vicente - Jundiai (Terra da Uva) SP
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2009/1/19
Subject: Re: HAIKAIS DO PERDÃO
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Olá, Theresa Catharina:
Esse pensamento cristão é uma bênção para a humanidade.
Luci
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HAIKAIS DA ALAMANDA
Ante as folhas vistosas
da alamanda tóxica e catártica,
fujo ou fico a me deslumbrar?
Sinto medo da alamanda
ou me rendo à medicina
natural e terapêutica?
Que visão de beleza
a alamanda nos dá,
confiante em seus poderes!
Theresa Catharina de Góes Campos
São Paulo-SP, 24 de janeiro de 2009
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HAICAIS DA CASA DE PRAIA
A casa de praia recebeu
aquela gente cansada
que ali encontrou alegria.
Apesar de tamanha confusão,
na casa de praia tumultuada,
os risos ecoaram longe.
O "adeus" à casa de praia
na verdade é "até logo"
ao reencontro de amigos.
Não esquecemos confidências
na casa de praia ouvidas
com trilha sonora do mar.
Theresa Catharina de Góes Campos
São Paulo-SP, 24 de janeiro de 2009.
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TRÊS HAICAIS
A cantárida é um inseto, um besouro com a química dos segredos de Afrodite.
A menina trouxe a pêra mas não queria esperar para o sabor comprovar.
As cores da tarde outonal deram todas as nuanças que o pintor procurava.
Theresa Catharina de Góes Campos São Paulo-SP, 24 de janeiro de 2009
From: Luci
Tiho Ikari
Date: 2009/1/24
Re: TRÊS HAICAIS
To: Theresa Catharina de Goes Campos
Theresa Catharina:
Seus poemas são diferentes! Têm originalidade própria,
de Theresa Catharina.
Luci
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